Domingo e pedaços de lençóis

É preciso uma certa quantidade de drogas
e boa música
ou habilidade
ou algum tipo de forma abstrata
de enxergar a existência,
que obviamente ainda não tenho,
para sobreviver a um domingo em casa.
São 24 horas de você
louco
entre a cruz e a espada.
Chega uma hora em que
Netflix e vinho não ajudam mais.
Chega uma hora em que
nem o amor consegue te tirar
do poço do domingo,
e várias vezes, nesse
belo, maldito e infinito dia
um cenário fica martelando na minha cabeça:
Latas de cerveja e garrafas de vinho jogadas pela cozinha.
Meu corpo caído na sala.
Uma .38 nas minhas mãos.
Meu cérebro finalmente em paz e
espalhado na parede que fica atrás do sofá.
A televisão ligada enquanto
a Pipoca da Ivete
e todo aquele falso calor, baderna e gritaria
que só programas de auditório conseguem
transmitir para a massa,
rola solto e deprimente…
Passo minutos olhando para o teto
pensando nisso.
Mas desperto e
porra, nem arma eu tenho.
Mal consigo pagar as contas,
quanto mais comprar um cano.
Além disso, no último segundo
acho que não teria culhões.
Não teria a verdadeira coragem
ou a verdadeira dor, sabe.
De toda forma, o domingo é horrível,
triplica teu sofrimento,
acaba com o pouco que sobra de você
depois de cinco ou seis dias dias “úteis”
(úteis apenas para o patrão).
Num domingo, tudo e todos
tentam te esmagar
de qualquer maneira,
vão direto no ponto fraco e
pisam na ferida sem dó,
mas ainda assim,
apesar de tudo,
apesar de absolutamente
todo o tédio e desespero
desse fodido dia de
descanso abençoado por Deus,
sempre haverá uma
segunda-feira disfarçada de esperança
e enxergar isso
é a tênue distância
entre enfiar um tiro na testa
e continuar.
Mas, continuar até quando,
até aonde?

Suíte 51

Me pego imaginando
você todos os dias
e percebo um quê de
sadismo e insanidade em tudo isso.
Acordo lembrando do sabor
de vinho que deixei
no teu pescoço
e abraço o travesseiro mais
próximo como o bom e
velho cuzão que sou.
Escuto teus áudios do whatsapp
sem aumentar a velocidade
e isso me prova que
ainda não gastei por inteiro
a paixão besta
que tenho aqui dentro.
Todo o meu papo
de que já dei tudo o que
eu tinha de bom para outra
vai pro inferno
quando a tua boca está na minha
e sorrio nervoso
me perguntando
o que o destino vai fazer
para descontar toda essa
atual boa sorte.
De que forma
vão tirar de mim
essa sensação parecida com felicidade?
Realmente, não sei como,
mas vão.
Até lá, me afundo em tu.
Rápido, louco, cego, suicida,
do jeito que tem que ser.
Me orgulho das tuas marcas
nas minhas costas.
Das tuas mãos doces e assassinas
me tirando todo o ar
enquanto você me cavalga,
selvagem e impiedosa.
Me orgulho do teu olhar
meio triste,
cheio de carinho e parado
nos meus olhos
por alguns instantes.
A inflação,
a raiva desesperada,
a violência sem sentido,
a humanidade,
a porra desse spleen que me acompanha sempre.
Nada disso me afeta tanto
contigo por perto.
Nem uma mariposa
à beira da morte
consegue voar tão leve
como nós dois juntos
e todos os grandes
e ridículos poemas sobre amor que já li,
aos poucos,
começam a fazer algum
sentido.

11/05/2022

Termino de doar sangue.
Balanço a cabeça afirmativamente
enquanto a funcionária do local
me diz para não ingerir álcool e nem fazer esforço durante 12 horas.
Saio do banco de sangue,
compro aquele café (sem leite, claro) de um real e mando para o ar o primeiro cigarro do dia.
É quando finalmente acordo.
Dou uma caminhada de 30 minutos
enquanto procuro alguma prostituta
no Photoacompanhantes,
mas nada me convence, nem agrada.
Não que eu seja seletivo.
Sou mesmo paranóico.
Então, termino a manhã só.
Não é nenhuma novidade.
Termino só,
bebendo cerveja e alcatrão.
Olhando os desejos de feliz aniversário
no whatsapp
e procrastinando os agradecimentos.
Tô torcendo para ser o último.
Tô Torcendo para que o próximo
seja algo “melhor”.
Tô torcendo pelo não sei o quê mais.
Não sei o que quero.
Nunca soube.

Asfixiofilia

O casamento não está bem.

O trampo também está pior a cada dia.

A paternidade não é das melhores.

O país continua indo ralo abaixo

da mesma forma que vai

desde quando o primeiro puto branquelo pisou por aqui e enganou o inocente nativo com um espelho.

Os sinais estão vermelhos

mas todos os carros avançam.

A música não significa nada.

A mixaria que ganho todo fim de mês

é a mesada do filho de 5 anos de algum jogador de futebol.

Ou você ri ou você chora.

Tem que botar algo pra fora

nem que seja um tiro em alguém

senão você acaba pendurado pelo pescoço

no quintal da casa da avó

e nunca saberão se foi asfixia autoerótica ou suicídio.

É clichê, mas eu queria chorar. 

Levaram minhas lágrimas uns anos atrás, então, deixo essa ideia para lá.

Boto a carteira no bolso.

Acendo um cigarro,

Ajeito as calças,

olho para frente sabendo que nada está resolvido,

e sigo,

crendo que estou pronto

para mais um pouco da vida,

mas estou apenas indo comprar pão e cerveja.

Os idosos seguem apostando no jogo do bicho
e a funcionária da banca,
uma loirinha de uns 55 kg,
continua de cara feia enquanto imprime o resultado das 13h para eles e fala com as amigas no whatsapp.
Esse lugar, o círculo do sebo, é mais do que um grande buraco no centro do Recife onde se vende livros, vinis velhos, se bebe e se trepa.
É quase um cenário cyberpunk.
É podre, sujo, (a)cultural, perigoso e lindo.
Me apaixonei por uma garota
que anda por aqui de um lado para o outro
vendendo pipoca
com o filho de uns 2 anos nos braços.
Cabelos na altura dos ombros, castanhos, quase loiros, magra.
O shorts deve ter sido doado pois ela o puxa para cima a cada 30 segundos.
Ela é linda, puta merda,
e falar isso não representa nem 10% da realidade.
Com mais sorte, ela passaria tranquilamente por uma filha blogueira de um porco político endinheirado.
Ela é um elemento da natureza, ela tem porte e nem toda a miséria ao seu redor consegue lhe tomar isso.
“Deus” está contido nessa criação.
Se tivesse grana de verdade,
levaria os dois agora para um resort fodão.
Daria de tudo para os dois,
e na madrugada, depois que o guri estivesse afundado no sono,
bêbados e chapados,
eu e minha garota faríamos sexo.
Talvez amor.
Aquele amor sentido
em pequenos e curtos instantes.
Um amor que vai além da simplicidade da lógica de alguém que não usou LSD ou cogumelos.
Um casamento, talvez?!
Seria sublime…
Não, para quê estragar um sentimento tão puro?!
Abro os olhos.
Percebo que continuo sentado,
cercado por livros, álcool
e com a carteira ainda no bolso (amém).
Na mesa, o quarto litrão de Brahma chegou quase ao fim,
mas o quartinho de alcatrão está pela metade
então muita coisa ainda pode acontecer, porra.
Nesse instante, eu poderia fazer uma volumosa dissertação social diante do abençoado e infernal círculo do sebo, cravado bem no peito da maldita Recife,
mas estou bêbado demais para isso
e me contento em apenas
admirar a jovem mãe e os outros fodidos e rejeitados  pela sociedade que, assim como eu, buscam não sei exatamente o quê por aqui.

Psiconauta

Como é que capturo essa música que tá tocando agora

e agora

e agora

na minha cabeça frita

justo na hora em que eles passam

por dentro dos espelhos?

Quando eu paro e penso

eu me traio.

Tô tentando filmar esse show

que tá rolando dentro da minha mente

e escrever aqui é tentar tirar uma foto

do bacanal.

A batida do travesseiro na cama me puxa de volta para onde eu não quero muito estar.

Que mania chata essa minha

de escrever pensando baixo.

Quando será a hora de gritar?

Parece que eu já fiz o que tô fazendo agora

e não tem nada de  dejavu nessa história toda.

Tô pensando lá fora, naquele escuro.

No cacto que tá do outro lado da porta.

Sinto um repentino e inevitável

carinho por aquele Verde e seus espinhos.

Balanço os meus braços

e minha sombra não me acompanha.

Sou uma paródia de mim mesmo

e tô te vendo aí dentro

e tô me vendo lá fora.

Lá fora

do lado que os olhos abertos

não podem ver.

Lá  onde só a psilocina me leva.

And all this pain just trashes my head

Cada vez menos escrita.

Cada vez mais precisando de menos palavras

para me dizer o que sinto,

mas sem nunca conseguir o dizer realmente,

definitivamente.

Minha mulher não me entende,

estou alto demais.

Minha filha me olha estranho às vezes,

como se eu acabasse de descer

de uma nave espacial

e mostrasse que nada do que ela acredita

é verdade, inclusive a farsa da minha autoridade.

São 32 anos sem conseguir me encaixar

nem mesmo naquilo que eu criei.

Que sina é essa?

Um quebra cabeças com peças perdidas.

Um fone de ouvido com apenas um lado funcionado,

e nada disso parece que chegará ao fim.

Não tem fim.

Não tem fim.

Não tem fim.

Não é o eco.

Torno-me alguma coisa,

algo que vaga entre o ser

e o se desfazer,

algo que está sempre falando na minha cabeça,

algo que resmunga tanto,

que questiona tanto

que, distraído nessas conversas,

quase sou atropelado diariamente nas avenidas.

Não sou eu.

Não me (re)conheço.

Lanço palavras e

assisto cada vírgula, cada ponto e cada letra

tornar-se puro sangue

enquanto as linhas sem par

que chamo de versos

seguem

como tortos caminhos

mal criados,

indo, secretos e sedutores,

guiando-me até uma

familiar solidão que não me deixa exatamente triste…

Você me entende, não é?!