Minha barba cheira à wisky
e eu acredito que gosto do Carnaval.
Não curto muito o frevo
mas quando se está em alguma ladeira de Olinda
o frevo é Deus com a ardência de Satã.
Eu estou bêbado e entorpecido de não sei mais o quê
e me apaixonei por uma guria de 17 anos que me sorriu com os lábios e com os olhos no turbilhão de um bloco de rua.
Apesar da melancolia que sempre me acaricia, estou pronto pra todo o paganismo depravo que me espera nesse carnaval,
e com sorte ou com azar, quem sabe,
meu casamento se acaba.
Afinal, tudo é merda.
De quê adianta dar tanta importância para relações humanas? Para quê tanto apego?
Pinguins se relacionam bem melhor do que nós.
Tudo escorre pelas mãos, quer você queira ou nao.
Inclusive eu,
inclusive você.

M A R

Quando não há inspiração
há o café.
Sem inspiração e café,
há o fumo.
Sem inspiração, café e fumo
há o álcool
Sem álcool, inspiração, fumo ou café
minha mente
torna-se
minha pior inimiga e os sentimentos, as coisas, as pessoas, os objetos ao meu redor
não são mais suportáveis.
O spleen me espreita, taciturno,
com seus grandes olhos lamentosos
e esqueléticos dedos amarelados…
Mas escapo, por fim, dessas velhas mãos traiçoeiras
na doce e latente selvageria dos teus versos
que me escolheram para admira-los,
que me deram o inefável prazer
de vislumbrar teu mundo
onde as palavras dançam
em furiosa harmonia.
As ondas calmas do teu nome salgado
Moça,
Adornam e
Refletem a lua e as
Inquietas sombras das
Nênias que tanto
Amo.

Ratos e parnasianos

Se empenhando,
suando como um suíno febril,
lutando contra palavras e pensamentos.
Toda uma noite debruçado sob um papel,
caçando sinônimos imprestáveis em dicionários amarelados.
Na mesa, um charuto importado e vinho branco com filé de peixe.
Caprichando incessantemente,
em cada verso,
mas nunca o bastante,
punhetando pelo poema perfeitamente
metrificado, devidamente pesado, prensado e enlatado!
Horas, dias, semanas, tudo para escrever algumas linhas
e impressionar animais de gosto duvidoso.
Amigo(a), para quê tanto parnasianismo
se o que tem dentro de você é a mesma coisa que tem dentro de um rato?
Para quê tanto Bilac se quem reina é Sade?
Não invente, não controle o que escreve.
Arranque, colha, estripe.
Ou não se dê ao trabalho.

Poema enjoado

Preciso de vinho
tinto e gelado,
para amaciar a lembrança dos teus olhos verdes.
Eu os encarei e foi como se pôr diante de uma furiosa tempestade.
Mas quanta cafonice barata em meia dúzia de versos, não é mesmo?
Logo eu, o barbudo da cara feia, o grosso, o que anda pelas ruas só, coberto de dor e indiferença (e tome mais cafonice).
Meu coração, esse senhor vagabundo, inerte e
lapidado por lascas de pedras, chuvas e ventos
tremeu, correu, quase explodiu,
e tive que virar o rosto, pegar um ar, fingir que estava tudo tranquilo.
Mas, quando é que tudo está tranquilo, não é mesmo?

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É noite,
minha mente desordenada não para e
me vejo perdido em sonhos.
São diversamente loucos e desnecessários,
sem entendê-los
eu levanto e bebo mais um pouco
tentando fazer tudo acabar,
tentando finalmente cair no poço do sono.
Os sons dos grilos,
os ruídos da geladeira
e do rato em minha cozinha
serão ecos distantes
que me deixarão preso
entre a realidade e o sonhar.

Enquanto a pizza não fica pronta

Não se preocupem.
Todas as bucetas novas, decentes e firmes serão suas.

Elas decidem a ordem,
e a ordem é: engenheiros e médicos primeiro.
Não se preocupem,
as depiladas e cheirosas,
as que esnobam os pedreiros, entregadores e porteiros que quebram os pescoços quando as vêem,
todas elas, absolutamente, todas elas serão suas, não precisam discutir.
Calma também, Playboys, Pitboys, jogadores de futebol, pagodeiros famosos e afins.
Todos os belos rostos que me olham feio nas ruas serão seus.
Esses decotes mortais e
suas respectivas bundas redondas, lisas, duras e recheadas de likes estarão em suas mãos sem se importar com alianças, com burrice e nem com falsas juras de amor.
Calma, garanhões milionários, seus carros importados e mansões serão palco das maiores orgias e carnificinas.
Bangbros e Brazzers parecerão o recreio do jardim de infância perto de um fim de semana de vocês.
Levem todas elas, não lamento mais.

Deixem para mim as que não ligam tanto para grana,
deixem para mim as que não se depilam bem, as prostituídas,
as doidas, as bêbadas, as que quase foram abortadas, as com crises existenciais, as suicidas,
as que apagam cigarros nas próprias mãos e bochechas, as viciadas, as bipolares,
as que passam semanas fora de casa sem dar notícias…
Deixem todas as rejeitadas pela normalidade para mim.
Eu as amarei.

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Pedaços de sono e restos de poesia

Lençóis rasgados cobrem meu peito fragmentado.
O segundo verso é sempre mais difícil que o primeiro e mais fácil que o terceiro.
A incapacidade de ser humano transborda por minhas frestas
e a impaciência tinge os meus cabelos de branco numa lenta e longa sessão de tortura/pintura.
Lembrar de respirar é incômodo.
Lembrar de nivelar meus ombros tortos é irritante.
As vozes me dizem que talvez seja melhor parar por aqui, aos 30, mas o passado e o futuro me fazem continuar e então, as vozes são abafadas pela esperança infantil das possibilidades.
O que me diferencia de um animal é a noção de dor.
Um animal reage à dor viva e concreta,
eu sou atormentado por dores que não existem,
ou melhor, por dores que só existem por mim e para mim.
Falar é cansativo.
Escrevamos.
O paraíso artificial de seus cabelos vermelhos não pode me enganar e nem me destruir,
meu coração jaz estraçalhado
a mais de uma década e eu sorrio de saudade
enquanto os vermes me devoram.