Lua vermelha

Tenho uma caneca cheia de cerveja.
Tenho um copo até a metade de água ardente de péssima qualidade.
Tenho dezenas de coisas difíceis de dizer.
Tenho saudade de tempos que ainda
vão passar.
Sempre foi um grande problema
saber se eu deveria ficar
ou se deveria ir embora
e independente da escolha que fizesse,
eu sabia que nunca tomaria a decisão certa
e então, realidades novas se abririam.
Não é física, é apenas covardia, meu amor.
Lembrei do dia,
em que pedi pra que você não partisse,
você sorriu e disse que não podia deixar de ir
e meu cérebro infantil percebeu como a vida
pode se tornar
mais difícil apenas com o passar do tempo.
Não foi só mais um coração esmigalhado,
foi uma infinidade de coisas que não podiam mais acontecer.
Oh, querida…
Somos apenas outro buraco na estrada.

O crime que nos transforma em parceiros

Onde cada mentira
é erguida e banhada com ouro, aplausos e rezas,
ouvir um eu te amo
não deveria mais arrepiar.
Abraços não deveriam enternecer.
Mas olho para esse céu azul de novembro
e tenho certeza de que essas
são ilusões necessárias.
Ilusões importantes demais
para serem deixadas de lado.
Como posso falar mal da fé alheia
Se não passo de um sonho.
Se você não passa
de uma miragem.
É, meu amor.
Eu acredito.
Limpe meu estômago frio.
Me derrube.

Is this it

Eu odeio todos eles.
Não se sinta excluído, não gosto de você também.
Minha playlist me mantém são.
Acalma as vozes.
Mas nem sempre.

Jantar sozinho às 3 da manhã.
Estou só, do outro lado.
Minha mente não ajuda.
Só posso tentar compreender o escuro.
Não existe mal aqui.
Apenas o que está dentro de tudo.
De mim.
Das latas vazias no lixo.
É pra essas coisas
que as as lágrimas caem?
Elas existem para dizer
aquilo que o coração quer esconder.

Como somos pequenos.
Como somos humanos.
Você não sabe mentir, minha criança,
e eu minto tão bem.
É pra isso que os corações batem?
Que desperdício…

Meus braços caem cansados de
pôr tantas coisas ilegais em meus lábios.
Tão cansados.
E é isso.
Minhas costas doem com o peso da luz.
Minhas pernas não querem correr.
É por isso que nos matamos?

Estamos em guerra com nós mesmos.
Mas você só percebe isso quando
está só, minha querida.
As centenas de livros na minha sala
não me salvam quando estou assim.
Tenho que buscar a coragem
em algum lugar escuro.
Aqui você não vê meu rosto.

Minha nossa,
que os mortos nos abençoem.
É tudo tão difícil.

Duas vezes paixão

Um passeio sob um sol
que nunca nasceu,
numa tarde de maio
que nunca existiu.

A praia que não fomos.
O vento que não soprou.
Teus cabelos que não balançaram

As cortinas que não fechamos.
O abraço que nos faltou.
As lágrimas que te afogaram
e que nunca pude enxugar.

O nosso não caminhar
de olhos e mãos
e pernas
e carnes entrelaçadas.

A cama em que nunca deitamos.
As besteiras que você nunca sussurrou em meus ouvidos.

Essa ausência silenciosa
que me assombra
é um monstro de infinitas aparências.

As palavras que me aceleram
e que são escritas
por mãos longínquas,
mas tão presentes.
Mãos familiares,
mãos leves que nunca alisaram minha testa suada.
Mãos que amei
sem mesmo nunca ter visto.

Eu estou em você e você está em mim.
Mas ainda assim não consigo dizer
que te entendo,
não com toda a coragem, não com toda a certeza.
Assim como tudo, isso também não existe.

A dor é particular demais.
Ela emana a cada batida no peito
e todos ao redor podem sentir o cheiro,
podem ver a cor, podem se sentir mal na presença dela,
mas apesar de grande,
a sua sina é caber
em apenas um coração.

Deuses, como eu queria que você me acendesse um cigarro agora.

Somos um longo não ser
Mas isso não me derruba.
Não.
Nunca.
O que me corrói,
não é toda a possível ventura
que nos foi negada,
O que me aflige, é tua tristeza
ser Maior do que a nossa distância.

Sorte

Aquela boca
repleta de meios sorrisos tristes
me deixa com preguiça
de terminar poemas,
mas não fico cabisbaixo.

É como cair lentamente em seus braços.

Meu violão empoeirado
encostado ao lado do guarda-roupa
é um jeans com rasgos no joelho
que não me cabe mais.
A aguardente envelhecida
lá em cima do armário
me olha de lado
e eu finjo que não sei de nada.
Na verdade, não é artimanha
da minha parte.
Não sei de absolutamente nada.
Saber destruiria tudo.
A graça está em buscar, sempre.

Onde eu irei parar?

A janela do quarto
brilha de forma irritante e
me diz que não vale a pena
ter um coração
onde deveria repousar o meu cérebro.
Então me cubro
com lençóis verdes
e espero que
sentir tanta coisa ao mesmo tempo
um dia me liberte
da fraqueza adquirida por apenas existir.

Coração Thelema

A minha sepultura é o coração.
Aqui manda o silêncio.
Aqui reina cada lembrança.
Batalham entre si
a satisfação que nunca chega
(pobre utopia mundana)
e o tormento,
companheiros de mesa,
de copo,
de madrugadas insones,
de filmes ruins.
Os dias não terminam,
aqui é sempre um amanhecer que nunca chega.
Aqui eu sempre digo sim,
mas a humanidade
é um eterno eco dizendo
não,
não, seu filho da puta,
não.
NÃO.

O último tormento

As cervejas transbordam
e as crianças correm
Como pequenas erupções infinitas de alegria e luz.

Os bebuns perambulam
E me olham com uma espécie
de raiva e carinho decadente
Quando me pedem R$5
pra descolarem carteiras de cigarros
de péssima qualidade.
Lhes dou umas moedas
e umas notas de R$2,
é o que fazem os camaradas.
Isso não matará ninguém.

O barulho incessante do relógio
numa madrugada quente.
Isso mata uma pessoa.
O preço do óleo de soja.
Não ter um prato de arroz
Para oferecer aos filhos.
Mulheres lindas desfilando
em carros de R$250 mil
Sem perceber os olhos
De seres destruídos fisica e psicologicamente ao redor.
Políticos de braços abertos
com as mão sujas de óleo de pastéis
de rua (durante as eleições, claro.)
Isso é o que mata muita gente.

Tantas vozes que não dizem nada
Sussurram, gritam, explodem
E você só pode tapar os ouvidos
e andar no escuro
Ou achar que está entendendo tudo
e cair no chão.
Pergunte o sentido da vida ao horizonte.
Ele te responderá a verdade.

Sem sinal

E o que é o existir
Se não a insistência de resistir
Enquanto as mentiras
Ao teu redor persistem
E te iludem?

E o que é o desistir
Senão abraçar
Cada pedaço
Do castelo que desmoronou
Quando você se deparou
com a verdade cósmica?
(e não estou falando da tapeação do zodíaco!)

É uma luta injusta.
Somos só formigas
Subindo num ringue
Para morrer
Enquanto os chefões
Nos assistem em seus camarotes.

A diferença entre
Um fracassado suicida
E um bon vivant
É a adaptação.

Largue os sentidos.
Largue a ética.
Isso não importa.
O pecado nos atormenta
Só enquanto não se transforma
em prazer.