F F F

Não resta muito a se fazer além de beber vinho tinto no escuro
(um pouco depois de dizer que ia maneirar na bebida).

Não é por charme.
Não é pra parecer com algum perdedor fingido cheio de frases da moda para colocar como legenda nas fotos do Instagram.
Não é pra comemorar.

É puro cansaço.
Puro desgaste físico e mental.
Aqui não há diálogo.
Aqui estupramos a inocência.
Aqui, cagamos na cara da humildade e da empatia e damos um tiro na cabeça de quem faz o contrário.

Me perguntaram qual é o meu problemas com Jesus,
mas cristo não me irrita.
Suas histórias, milagres e tudo o mais…
Um cara que transforma água em vinho e prega o amor?
Definitivamente, não o odeio.

O cristão que mente, trai, julga e prega a morte durante todos os dias,
mas que na missa, na páscoa e no natal vem falar sobre amar ao próximo
e não pecar comendo carne, esse sim me enlouquece.
Me enfurece.
Me faz ter pensamentos assassinos, suicidas, genocidas.
Me faz beber vinho tinto no escuro e torcer para o sol
não nascer.

O mal diário

– Tô de saco cheio desse curso, bicho. Um monte de almofadinha escroto se achando a pica que matou Cazuza só por ter lido Jung. Até um sapo lê Jung. Além disso, tô ficando sem tempo. O trampo tá foda. Acho que vou largar essa faculdade, mais uma vez.

– Cara, não que uma faculdade vá te salvar, mas estamos cercados de gente escrota. Isso não é motivo pra nada. Não faz isso não. A melhor coisa que tu faz é se formar nessa porra desse teu curso de psicologia aí, bicho. Tu vai me tratar.
Vai ter que me tratar, porque eu tô fodido.
Minha cabeça tá estraçalhada..
Eles estão vencendo, me engolindo.
Eu vivo ferrado, vivo a ponto de matar alguém pela rua.
Suas calças, seus gestos,
suas conversas,
os formatos das suas orelhas,
seus olhares derrotados,
por Deus…
Não dá pra aguentar.
É demais para mim.
A única coisa que consegue chamar minha atenção
e me preencher com um pouco de vida
no meio de tanta loucura, raiva, morte e indiferença
é uma música boa ou um rabo gostoso passando na calçada.
Mas nem sempre minha playlist ajuda, e nem sempre um bom rabo está passando pela calçada, né?!

Paraíso, Expurgo, Mar

Não sei por quê,
mas quis um incerto poder divino
fazer a carne tão fraca
e o desejo tão forte,
e nem adianta julgamento e apostas,
que de tão covarde, essa luta
nem vale a pena ser travada.

O que sei
é que ela destruiria meu coração
com a mesma calma
das crianças que brincam
de pisar em formigueiros no parque.
Ainda assim, a tentação grita mais alto.
Quem pode culpar a pobre, Eva?
Quem pode me culpar?
Sou um velho mosquito atraído por duas
lâmpadas mortais, enormes,
brilhantes e azuis.

R$2,00 de francês

Marcas no chão me
mandam ficar a 1,5 m de distância de todos vocês,
mas porra, ainda é tão pouco.
Na verdade, qualquer distância nunca será o suficiente.

Porcos com máscaras
abaixo do nariz entram na padaria
e conversas sobre as 300 mil mortes surgem naturalmente.
É o papo em alta no curral, perdendo
somente para o BBB.
A mesma ladainha barata prossegue.
Só não entendem, ou se recusam a entender, que continuaremos morrendo sem nenhum tipo de inocência,
e que bem acima dos 300, 400 ou 500 mil, haverá um enorme monstro
coroado com ódio, egoísmo e remédios milagrosos/duvidosos.
O grande e mitolatrado gênio da raça.

É estranho.
Sair de casa e olhar essa população grotesca não deveria ser algo gratuito.
Desde quando os circos de horrores deixaram de cobrar suas entradas?
Esse Freak show sem fim
deve render grana a alguém
que já está no topo.
Tudo aqui se resume a isso
ou você acha que o comércio
vai abrir na páscoa
apenas para que pobres criancinhas possam
comer seus ovos de 250g superfaturados
comprados com sabe-se lá qual dinheiro,
conseguido através de muito suor de pais perdidos e desesperados?

A graça da pandemia, além do fato de estarmos apanhando mais da segunda onda do que da primeira, é que no meio de todo esse caos, a fortuna dos bilionários brasileiros simplesmente aumentou.
Você está rindo?
A piada termina com o pobre trabalhador
lutando e morrendo para defender essas fortunas.

Minha máscara não é suficiente.
Ainda estou na fila e quase enlouquecendo em pensamentos,
estou prestes a desistir de esperar e sair correndo
quando vejo um grande e lindo vira-latas surgindo no meio da noite
e deitando no tapete que fica na entrada da padaria.
As pessoas que chegam ou que saem apenas desviam do safado dorminhoco.
Todo mundo o vê.
Ninguém o incomoda.
Continuam afastando os pés
com cuidado para passar.
Por deus…a minha fé na
humanidade foi momentaneamente renovada.

150ug

Ela botou a banana na língua,
fechou os olhos e sorriu. Nunca a vi tão linda.
– Bicho, essa cartela de banana não é das melhores mas, puta merda, a trip ainda é muito boa.
– Eu adoraria montar um estoque mensal de fumo e ácido, mas não tenho os contatos certos, sabe. Para mim, é mais fácil ir num boteco de esquina tomar umas doses de vodka, alcatrão e rebater tudo com cerveja do que comprar umas gramas de massa boa ou uma cartela.
– Tô ligada. Tá difícil mesmo. Até pra quem tem contato certo. Galera sendo presa, galera sumindo do mapa, PM fazendo cocó pesada só pra prender usuário e aparecer na TV, isso sem falar dos arrombados trapaceiros. Já cansei de perder grana pra filho da puta pela Net.
– Foda, gata. O dono do bar não me engana desse jeito, no máximo, passa um troco errado quando tô doidão, me ferra umas moedas, umas notas de dois reais, nada demais…
– Hahahaha mas bebida é uma merda.
– Eu sei, mulher, eu sei. Bebida é punheta, ácido é transar gostoso com quem se ama.
– Exato, porra!

Em todo boteco que se preze, você tem que ser atendido pelo dono. Também tem que chamá-lo de viado direta ou indiretamente sempre que puder. Sem homofobia nem nada do tipo, entende? É apenas a maneira como as coisas seguem.
Um bom boteco tem que ter algum louco de estimação que sempre passa pelo local falando merdas ininteligíveis, xingando e sendo xingado pelos clientes.
Todo boteco que presta, tem que ter caldinho de feijão, alcatrão e cerveja quase gelada. Perdão, mas seu restaurante gourmet com um menu de oito páginas e uma clientela escrota de madames limpas e advogados com bigodes perfeitos com certeza não chega nem perto de um boteco fodão.

Num boteco também tem que existir algum sujeito estranho que quase nunca fala, mas que está sempre lá escrevendo coisas no celular ou num guardanapo enquanto enche a cara.
Fofoca. Num boteco padrão, a fofoca tem que rolar solta. ” Souberam que João comeu Maria que é casada com Salatiel e deve aluguel para Pedro? Pedro disse que se não lhe pagarem a dívida, ele vai estuprar Maria, Salatiel e o cachorro de João…”
Aqui conversas aleatórias da vida alheia não podem faltar e nem precisam fazer sentido algum.
Tem também o cara que está sempre lá no boteco, cheio de conversa mole e ocupando os melhores lugares mas não consome nada além de uma garrafa de água. O filho da puta geralmente reclama do preço da água.
O dono. O dono do boteco sempre tem que ter um passado meio obscuro. Coisa do tipo, ” veio do interior após matar um desafeto ou estava jurado de morte em Minas e após dar um sumiço no agente da condicional, correu pra cá e abriu um bar.”
É impossível abrir um boteco e ser aparentemente alguém de bem.
“Foda-se o bem”. É o que dizem.

Num boteco sempre tem uma história de morte, além das histórias que rodeiam o dono. “Eaê cara?! Sabe, mataram um sujeito nesse lugar em que você está sentado, isso foi a uns anos atrás. Um alucinado veio e esfaqueou o cidadão bem nessa cadeira. Primeiro no pescoço, o sangue jorrou no chão e na mesa. Depois duas facadas na nuca. Nunca pegaram o desgraçado mas falaram que foi coisa de chifre, sempre é, tá ligado!?”
“Tô, tô ligado.”
Um bom boteco abre todos os dias, principalmente em dias de semana.
Não faz sentido ficar bêbado aos sábados e domingos.
Todo mundo está louco igual a você. Qual é a graça? Grandes merdas, entende?!

Em um bom boteco, o clima fecha se chega alguém desconhecido. A clientela tem que ser, obrigatoriamente, sempre a mesma. Todos pensam que o estranho é matador ou policial, o que no fim dá no mesmo. Enquanto o figura não der uma risada ou vinher com alguma conversa fiada, ninguém se dirige a ele.

A conta. Num boteco, ao entregar a conta o dono, invariavelmente, vai ouvir ” deu a porra, eu pedi duas latas de cerveja, não duas caixas” ou ” eu vou deixar essa conta na mesa, vou me levantar, te atolar uma bofetada e ir embora sem te dar um centavo, ladrão desgraçado. Desde quando cinco doses de vodka dão tudo isso aqui, porra?!”.
O dono, claro, geralmente está enxugando os copos e sorrindo enquanto escuta tanta merda e blasfêmia. Caso se estresse, é pior. Bebum não tem coragem palpável, mas tem uma habilidade surreal para encher o saco.
Um bom boteco, é a selva,
é um lar.

Ascenção

Não tinha muito o que fazer,
nem como lutar.
Só podia olhar
os seus olhos
lindos e grandes.
Estavam mais do que vivos no rosto dela.
Selvagens, tristes, duros, pulsantes.
Eles já viram a morte, o amor e
a peste em todas as suas formas.
Ainda assim, eles pediam algo tão básico,
algo parecido com carinho, talvez salvação.
Olhei para eles quase com medo e pensei:
“Puta merda, Deus, lá vamos nós de novo.”

Estão vindo

Os segundos passam.
Vivemos num eterno
” Nunca mais seremos os mesmos, mas tudo é a merda que sempre foi.”
São mentiras diferentes
que apenas escondem o que já sabemos.
A vida é estar sempre se enganando.
A vida é estar sempre esperando.
Esperando algo, alguém,
o inverno, o sinal verde,
receitas médicas, salário,
morte, satisfação, carinho…
É tanta espera
que uns piram de vez
e vivem rápido, correndo, alucinados,
queimando sem dó, até sumir.
Outros saem vagando por aí,
aparentemente saudáveis, confortados por crenças, política e tudo o mais.
Ostentando risadas mofadas sob o sol,
como quem procura uma sombra
para se abrigar e morrer.
Pouco importa.
O que não podemos fazer
é perder o fio da meada
e apenas boiar pelo meio disso,
entre todas as esperas,
entre todos os pontos finais
e as letras maiúsculas.