Sem controle

Sentado, num bar.

Tudo está claro.

Nada está resolvido.

O tempo segue,

o sol se põe e

o álcool começa a fazer efeito.

Você não está bêbado,

mas o peso da sobriedade

está dando o descanso merecido.

Sentado, num bar, claro

as coisas se desembaralham

e começam a fazer sentido.

Olho para além dos copos

das garrafas, dos alcoólatras e sorrio,

apesar de nada estar bem.

Os bebuns, aos poucos,

viram deuses felizes e amargurados

que esmagam a conversa

fiada da fé e da autoajuda em segundos.

É uma pena,

é realmente uma pena

tudo isso ser tão efêmero.

Mas, e se não fosse?

Ainda seria algo tão mágico?

Ainda seria algo tão

sagrado?

Não há música, apenas o barulho do ventilador.

Que pena.
Ficar sozinho não é mais
tão interessante como antes,
mas ainda não deixou de ser algo extremamente necessário.
Bem, hoje dormi cerca de
uma hora pela tarde
e lembrei o motivo de ter parado com essas sonecas.
Acordei acabado,
confuso,
cheio de pensamentos
que normalmente evito.
Medo do futuro
e do que ele fará com os que amo.
Olhando o passado igual a uma criança entediada e triste num museu.
Sem sonhos,
cercado por quadros,
ossos milenares e portas fechadas.

Levantei apressado,
tropecei num sapato sem par
e lembrei que os pares certos nunca se encontram.
Nunca.
Fui até a sala
e arrisquei a sorte no Porn Hub.
Tentei uma punheta deprimente
e acendi um cigarro
torcendo para que
antes dele chegar ao fim,
aquele desgosto vespertino
pela vida já tivesse ido embora.

A vida é falhar continuamente e miseravelmente como ser humano.

F F F

Não resta muito a se fazer além de beber vinho tinto no escuro
(um pouco depois de dizer que ia maneirar na bebida).

Não é por charme.
Não é pra parecer com algum perdedor fingido cheio de frases da moda para colocar como legenda nas fotos do Instagram.
Não é pra comemorar.

É puro cansaço.
Puro desgaste físico e mental.
Aqui não há diálogo.
Aqui estupramos a inocência.
Aqui, cagamos na cara da humildade e da empatia e damos um tiro na cabeça de quem faz o contrário.

Me perguntaram qual é o meu problemas com Jesus,
mas cristo não me irrita.
Suas histórias, milagres e tudo o mais…
Um cara que transforma água em vinho e prega o amor?
Definitivamente, não o odeio.

O cristão que mente, trai, julga e prega a morte durante todos os dias,
mas que na missa, na páscoa e no natal vem falar sobre amar ao próximo
e não pecar comendo carne, esse sim me enlouquece.
Me enfurece.
Me faz ter pensamentos assassinos, suicidas, genocidas.
Me faz beber vinho tinto no escuro e torcer para o sol
não nascer.

O mal diário

– Tô de saco cheio desse curso, bicho. Um monte de almofadinha escroto se achando a pica que matou Cazuza só por ter lido Jung. Até um sapo lê Jung. Além disso, tô ficando sem tempo. O trampo tá foda. Acho que vou largar essa faculdade, mais uma vez.

– Cara, não que uma faculdade vá te salvar, mas estamos cercados de gente escrota. Isso não é motivo pra nada. Não faz isso não. A melhor coisa que tu faz é se formar nessa porra desse teu curso de psicologia aí, bicho. Tu vai me tratar.
Vai ter que me tratar, porque eu tô fodido.
Minha cabeça tá estraçalhada..
Eles estão vencendo, me engolindo.
Eu vivo ferrado, vivo a ponto de matar alguém pela rua.
Suas calças, seus gestos,
suas conversas,
os formatos das suas orelhas,
seus olhares derrotados,
por Deus…
Não dá pra aguentar.
É demais para mim.
A única coisa que consegue chamar minha atenção
e me preencher com um pouco de vida
no meio de tanta loucura, raiva, morte e indiferença
é uma música boa ou um rabo gostoso passando na calçada.
Mas nem sempre minha playlist ajuda, e nem sempre um bom rabo está passando pela calçada, né?!

Paraíso, Expurgo, Mar

Não sei por quê,
mas quis um incerto poder divino
fazer a carne tão fraca
e o desejo tão forte,
e nem adianta julgamento e apostas,
que de tão covarde, essa luta
nem vale a pena ser travada.

O que sei
é que ela destruiria meu coração
com a mesma calma
das crianças que brincam
de pisar em formigueiros no parque.
Ainda assim, a tentação grita mais alto.
Quem pode culpar a pobre, Eva?
Quem pode me culpar?
Sou um velho mosquito atraído por duas
lâmpadas mortais, enormes,
brilhantes e azuis.

R$2,00 de francês

Marcas no chão me
mandam ficar a 1,5 m de distância de todos vocês,
mas porra, ainda é tão pouco.
Na verdade, qualquer distância nunca será o suficiente.

Porcos com máscaras
abaixo do nariz entram na padaria
e conversas sobre as 300 mil mortes surgem naturalmente.
É o papo em alta no curral, perdendo
somente para o BBB.
A mesma ladainha barata prossegue.
Só não entendem, ou se recusam a entender, que continuaremos morrendo sem nenhum tipo de inocência,
e que bem acima dos 300, 400 ou 500 mil, haverá um enorme monstro
coroado com ódio, egoísmo e remédios milagrosos/duvidosos.
O grande e mitolatrado gênio da raça.

É estranho.
Sair de casa e olhar essa população grotesca não deveria ser algo gratuito.
Desde quando os circos de horrores deixaram de cobrar suas entradas?
Esse Freak show sem fim
deve render grana a alguém
que já está no topo.
Tudo aqui se resume a isso
ou você acha que o comércio
vai abrir na páscoa
apenas para que pobres criancinhas possam
comer seus ovos de 250g superfaturados
comprados com sabe-se lá qual dinheiro,
conseguido através de muito suor de pais perdidos e desesperados?

A graça da pandemia, além do fato de estarmos apanhando mais da segunda onda do que da primeira, é que no meio de todo esse caos, a fortuna dos bilionários brasileiros simplesmente aumentou.
Você está rindo?
A piada termina com o pobre trabalhador
lutando e morrendo para defender essas fortunas.

Minha máscara não é suficiente.
Ainda estou na fila e quase enlouquecendo em pensamentos,
estou prestes a desistir de esperar e sair correndo
quando vejo um grande e lindo vira-latas surgindo no meio da noite
e deitando no tapete que fica na entrada da padaria.
As pessoas que chegam ou que saem apenas desviam do safado dorminhoco.
Todo mundo o vê.
Ninguém o incomoda.
Continuam afastando os pés
com cuidado para passar.
Por deus…a minha fé na
humanidade foi momentaneamente renovada.

150ug

Ela botou a banana na língua,
fechou os olhos e sorriu. Nunca a vi tão linda.
– Bicho, essa cartela de banana não é das melhores mas, puta merda, a trip ainda é muito boa.
– Eu adoraria montar um estoque mensal de fumo e ácido, mas não tenho os contatos certos, sabe. Para mim, é mais fácil ir num boteco de esquina tomar umas doses de vodka, alcatrão e rebater tudo com cerveja do que comprar umas gramas de massa boa ou uma cartela.
– Tô ligada. Tá difícil mesmo. Até pra quem tem contato certo. Galera sendo presa, galera sumindo do mapa, PM fazendo cocó pesada só pra prender usuário e aparecer na TV, isso sem falar dos arrombados trapaceiros. Já cansei de perder grana pra filho da puta pela Net.
– Foda, gata. O dono do bar não me engana desse jeito, no máximo, passa um troco errado quando tô doidão, me ferra umas moedas, umas notas de dois reais, nada demais…
– Hahahaha mas bebida é uma merda.
– Eu sei, mulher, eu sei. Bebida é punheta, ácido é transar gostoso com quem se ama.
– Exato, porra!